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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Heráclito de Éfeso


“Nada é permanente, exceto a mudança” – Heráclito
HERÁCLITO DE ÉFESO: Heráclito nasceu em Éfeso (cidade da Jônia), que corresponde a atual Turquia. Pertenceu à nobreza e sua família descendia do fundador da cidade. De acordo com Diógenes Laércio: “Heráclito, filho de Blóson, ou, segundo outra tradição, de Heronte, era natural de Éfeso. Tinha aproximadamente quarenta anos por ocasião da 69ª Olimpíada (504–501 a.C.). Era homem de sentimentos elevados, orgulhoso e cheio de desprezo pelos outros“. Por volta de 490 a.C, escreveu a obra “Sobra a Natureza”, dividida em mais de cem fragmentos e que lhe rendeu o apelido de “obscuro”. Foi escrito na forma de sentenças aforísticas e “a variegada prosa de Heráclito, artística e cuidadosamente estilizada, vai de sentenças factuais em linguagem comum a enunciados oraculares com efeitos poéticos especiais em vocabulário, ritmo e arranjo de palavras”. (HUSSEY, 2008, p. 139). Dessa forma, o modo de escrever de Heráclito é singular e bastante desafiador por possuir um caráter enigmático e sugestivo.
O DEVIR:
Heráclito é especialmente conhecido como o filósofo do devir, ou seja, do “vir-a-ser”, que significa a mudança perpétua, sendo essa, a característica mais marcante de seu legado: “O devir é caracterizado por um contínuo fluir das coisas de um contrário ao outro: “as coisas frias se aquecem, as coisas quentes se esfriam, as coisas úmidas secam, as coisas secas umedecem” (DK, 22 B 126); “o jovem envelhece, o vivo morre, e assim por diante.” (REALE; ANTISERI, 1990 p. 65). Afirmava que no mundo “tudo flui”, isto é, que a realidade não é estática, não há substância fixa, mas tudo encontra-se em constante movimento.
Para Heráclito, portanto, o mundo é dinâmico e está sempre em fluxo. Tudo muda e transmuta e neste dinamismo, tudo se alterna constantemente entre polos, e essa oscilação entre contrários é identificada como sendo responsável pelo equilíbrio e unidade das coisas. “O devir é, pois, continuo conflito dos contrários que se alternam, é uma perene luta de um contra o outro, é uma guerra perpétua. ( REALE; ANTISERI, 1990, p.65). Mas é neste confronto do devir que origina-se a harmonia universal, pois para Heráclito, identificar a oposição existente na natureza, significa perceber a unidade que ela possui. Vejamos abaixo um trecho de sua obra para esclarecer tal ideia:
Um caminho: subida, descida, um e o mesmo”. (DK 22B 60).
São o mesmo o princípio e o fim de uma circunferência”. (DK22B 103).
A doença faz da saúde algo aprazível e bom, torna a fome em saciedade e o cansaço em descanso”. (DK22

Raciocinemos de acordo com o pensador: como entender e valorizar a saúde se não existe a doença? Ou como compreender o que é claro se o escuro não é real? Ao pararmos para refletir, podemos, de fato, notar que para que certas coisas possuam um sentido, elas necessitam de seus contrários.
Uma máxima que se refere à sua filosofia e que tornou-se popular, é “panta rei os potamós” (do grego πάντα ῥεῖ), traduzido como “tudo flui como um rio“, e proferida por Crátilo, um de seus seguidores. Esse aforismo tem relação com um dos fragmentos de Heráclito que sobreviveram no qual o pré-socrático declarou: “Ninguém banha-se duas vezes no mesmo rio” (…) “De quem desce ao mesmo rio, vêm ao encontro águas sempre novas”. (DK22 B 12). E no fragmento 49 de sua obra, Heráclito escreveu: “Entramos e não entramos no mesmo rio; somos e não somos.” Podemos interpretar essa passagem da seguinte maneira: suponhamos que você entre em um rio hoje para banhar-se e depois de fazê-lo, vá embora. No dia seguinte, decide voltar ao rio para mais um banho.
Entretanto, as águas que ali ontem correram não são, por certo, as mesmas que passam hoje. E você também já não é mais a mesma pessoa do dia anterior por diversas razões. Por exemplo, você envelheceu (ainda que minimamente), viveu e adquiriu novas experiências, pode ter mudado suas perspectivas de hoje em relação a algo que ontem pensava, etc. Dessa maneira, o rio seria apenas aparentemente o mesmo rio, tal como você, aparentemente continua sendo o mesmo de outrora. Então “entramos e não entramos no mesmo rio”, ao mesmo tempo em que “somos e não somos”. Vejamos uma menção escrita por Platão (Platão por OSBORNE, 2013) a respeito de Heráclito:
Ele compara as coisas com a corrente de um rio – que não se pode entrar duas vezes na mesma corrente.
E quanto a nós? O que somos nós? Somos continuamente constituídos da mesma matéria ou nossos corpos se modificam sutilmente, justo como a água de um rio flui parecendo ser sempre basicamente a mesma?O que é de fato ser o mesmo dia após dia? Talvez, como o rio, sejamos e não sejamos o que fomos um dia.
O FOGO:
Conforme citado na introdução sobre os pensadores pré-socráticos, nessa época da filosofia, buscava-se um elemento natural (que pudesse ser compreendido e conhecido pela razão) e que explicasse a origem e realidade da natureza. De acordo com Heráclito, essa substância era o fogo e ele foi considerado pelo filósofo como o responsável pela criação do mundo. Conforme por ele declarado: “todas as coisas são uma troca do fogo, e o fogo, uma troca de todas as coisas, assim como o ouro é uma troca de todas as mercadorias e todas as mercadorias são uma troca do ouro”. (DK22 B 90).
A justificativa deste elemento como sendo o princípio do universo físico é que este representa uma sequência de transformações, portanto, tudo provém do fogo, e tudo a ele volta. Aristóteles escreveu em sua obra “Do Céu”, fez referência a essa tese de Heráclito:
Concordam todos em que o mundo foi gerado; mas, uma vez gerado, alguns afirmam que é eterno e outros que é perecível, como qualquer outra coisa que por natureza se forma. Outros, ainda, que, destruindo-se, alternadamente é ora assim, ora de outro modo, como Empédocles e Heráclito de Éfeso. (…) Também Heráclito assevera que o universo ora se incendeia, ora de novo se compõe do fogo, segundo determinados períodos de tempo, na passagem em que diz “acendendo-se em medidas e apagando-se em medidas”.
O próprio fogo, por si, indica mudança em suas propriedades. Por exemplo, suas  chamas, transformam-se em cinzas, fumaças e vapores. Talvez esse tenha sido o fator que levou Heráclito a defini-lo como elemento básico formador da natureza. E para o filósofo, as coisas que nos são familiares (como terra, céu, ar) resultam de processos dessa continua alternância do fogo. “O fogo, com efeito, é perenemente móvel, é vida que vive da morte do combustível, é incessante transformação em fumaça e cinzas (…)” (REALE; ANTISERI, 1990 p. 68). Tal elemento, portanto, é o símbolo do devir e do equilíbrio que governa os movimentos da natureza.
DEUS E ALMA:
Para Heráclito, até mesmo o próprio conceito de Deus é relacionado e identificado em sua teoria dos opostos, conforme podemos notar em uma de suas passagens: “O Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz, saciedade-fome; mas se alterna como o fogo, quando se mistura a incensos, e se denomina segundo o gosto de cada um.” (DK22B 67).  E a alma, para ele, possui dimensão infinita, e também carrega em si uma dualidade referente a sua teoria do fluxo dos opostos: “Para almas é morte tornar-se água, e para água é morte tornar-se terra, e de terra nasce água, e de água, a alma”. Além disso, o pré-socrático sugere constantemente em trechos de seus escritos, que a alma não é imortal, ela é mortal e imortal: “Imortais são mortais, mortais são imortais, vivendo a morte de uns, morrendo a vida de outros”. (DK22B 62). O próprio ato de morrer já se opõe ao de estar vivo. Logo, a própria morte, em si, já expressa uma noção de oposição.
REFERÊNCIAS
HUSSEY, Edward. Primórdios da Filosofia Grega. São Paulo: Ideias & Letras, 2008. 534 p. (Coleção Companios & Companios 1. Filosofia). Org. A.A.Long. Tradução de Paulo Ferreira.
OSBORNE, Catherine. Filosofia Pré-Socrática. Porto Alegre: L&PM, 2013. 155 p. (Coleção L± Pocket Vol. 1114). Tradução de Marcio Hack.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. Filosofia Pagã Antiga: In: Historia da Filosofia. São Paulo: Paulus, 1990. (Coleção Filosofia, volume 1). Tradução de Ivo Storniolo
QUESTÕES
1 - Explique o que seria o "devir" e como esse fenômeno explicaria a realidade, segundo Heráclito?
2 - Nesse sentido [do devir],comente como a oposição existente na natureza dá sentido à existência e ao sentido das coisas no mundo?
3 - Como Heráclito se utiliza da metáfora do rio para explicar as mudanças ocorridas na realidade?
4 - Por que o fogo, como princípio do universo físico, seria o símbolo do devir?

terça-feira, 19 de junho de 2018

Platão, conhecimento e bondade

No grego antigo, várias palavras traduziam distintos aspectos da felicidade. A principal delas era eudaimonia, derivada dos termos eu ("bem-disposto") e daimon ("poder divino"). Trata-se da felicidade entendida como um bem ou poder concedido pelos deuses. Subentendia-se que , para mantê-la, a pessoa  deveria conduzir sua vida de tal maneira a não se indispor com as divindades, para o que era preciso sabedoria. Mesmo assim, ainda corria o risco de perder esse bem ou poder se os deuses assim o desejassem, por qualquer motivo arbitrário.
Isso significa que a felicidade era tida como uma espécie de fortuna ou acaso - enfim, um bem instável que dependia tanto da conduta pessoal, como da boa vontade divina [cf. LAURIOLA, De eudaimonia à felicidade..., Revista Espaço Acadêmico, nº 59].


PLATÃO [427-347 a.C.] - considerado por boa parte dos estudiosos o primeiro grande filósofo ocidental, juntamente com seu mestre, Sócrates - foi um dos principais pensadores gregos a se lançar contra essa instabilidade , em busca de uma felicidade estável, postura que caracterizará de forma marcante a ética eudemonista* grega.

*eudemonista - relativo à felicidade ou que tem a felicidade como valor fundamental ou principal objetivo.

No entendimento de Platão , o mundo material - aquele que percebemos pelos cinco sentidos - é enganoso. Nele tudo é instável e por meio dele não pode haver felicidade. Por isso, para esse filósofo, o caminho da felicidade é o do abandono das ilusões dos sentidos em direção ao mundo das ideias, até alcançar o conhecimento supremo da realidade, correspondente à ideia do bem.



O que isso significa e como devemos agir para alcançar essa condição?

1 - Harmonizar as três almas

Para entender a concepção platônica de felicidade, precisamos compreender primeiramente sua doutrina sobre a alma humana, contida na obra A República. Para Platão, o ser humano é essencialmente alma, que é imortal e existe previamente ao corpo. A união da alma com o corpo é acidental, pois o lugar próprio da alma não é o mundo sensível, e sim o mundo inteligível. A alma se dividiria em três partes:

alma concupiscente - situada no ventre e ligada aos desejos carnais;

alma irascível - situada no peito e vinculada às paixões;

alma racional - situada na cabeça e relacionada ao conhecimento.

A vida feliz de uma pessoa dependeria da devida subordinação e harmonia entre essa três almas. A alma racional regularia a irascível, e esta controlaria a concupiscente, sempre coma a supervisão da parte racional. Há, portanto, uma primazia da parte racional sobre as demais.



Para apoiar essa tarefa, Platão propunha duas práticas:

ginástica - conjunto de exercícios e cuidados físicos por meio dos quais a pessoa aprendia a disciplina e o domínio sobre as inclinações negativas do corpo; e

dialética - método de dialogar praticado por Sócrates pelo qual cada pessoa poderia escender progressivamente do mundo sensível [que Platão considerava ilusório] ao mundo inteligível [que ele considerava verdadeiro].

2 - Conhecer o bem

Por meio dessas práticas - especialmente da dialética - a alma humana penetraria o mundo inteligível, também conhecido como mundo das ideias, e se elevaria sucessivamente, mediante contemplação, das ideias perfeitas, até atingir a ideia suprema, que é a ideia do bem. Para Platão, as ideias perfeitas seriam a realidade verdadeira, e compreendê-las significava, portanto, alcançar o grau máximo de conhecimento.

Por que a supremacia da ideia do bem? Porque o bem, segundo o filósofo, seria a causa de todas as coisas justas e belas que existem, incluindo as outras ideias perfeitas, como justiça, beleza, coragem. Sem o bem não há nenhuma delas, inclusive a ideia perfeita de felicidade [teoria do mundo das ideias].

Em resumo, podemos dizer que, para Platão, a felicidade é o resultado final de uma vida dedicada a dieia do bem, o que poderia ser sintetizado na seguinte fórmula:

conhecimento = bondade = felicidade

As três coisas, quando ocorrem em sua máxima expressão, andariam sempre juntas, mas o caminho partiria do conhecimento.

Além disso, para Platão, a ascensão dialética equivaleria não apenas a uma elevação cognoscitiva [isto é do conhecimento], mas também a uma evolução do ser da pessoa [evolução ontológica]. Simplificando bastante, podemos dizer que aquele que alcança o conhecimento verdadeiro [que culmina com a ideia do bem] torna-se um ser "melhor" em sua essência e, por isso, pode viver mais feliz.



3 - Construir o bem de todos

Platão, no entanto, tinha como motivação fundamental de seu filosofar o âmbito político: para ele, a política era a mais nobre das atividades e de todas as ciências, pois tinha como objeto a pólis [cidade-estado grega] e, portanto, a vida do conjunto dos cidadãos. Por isso, seu projeto político-filosófico visou à construção de uma sociedade justa, isto é, aquela que promovesse o bem de todos [ o bem comum]:

[...] ao fundarmos a cidade, não tínhamos em vista tornar uma única classe eminentemente feliz, mas, tanto quanto possível, toda cidade. De fato, pensávamos que só numa cidade assim encontraríamos a justiça e na cidade pior constituída, a injustiça [...]. Agora julgamos modelar a cidade feliz, não pondo à parte um pequeno número dos seus habitantes para torná-los felizes, mas considerando-a como um todo [...]. (A República, p. 115-116)

Com esse propósito, em sua obra denominada A República, o filósofo idealizou uma sociedade organizada em torno de três atividades básicas: produção dos bens materiais e de alimentos , defesa da cidade e administração da pólis. Dentro dessa organização, a cada cidadão caberia uma função social (produtor, guerreiro, sábio), e esta seria definida de acordo com sua própria natureza, isto é, a aptidão inata a cada pessoa.
A identificação dessa aptidão natural ou vocação se faia durante o processo educativo. A educação seria igual para todos os jovens. Aqueles que se revelassem os mais sábios seriam destinados à administração pública. E, como os filósofos eram os mais sábios entre os mais sábios [os conhecedores do caminho da felicidade], seriam eles os governantes da cidade.

Dentro dessa organização, conforme concebeu Platão, cada um já seria feliz pelo simples fato de cumprir a função para a qual é mais apto por natureza.