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terça-feira, 19 de junho de 2018

Platão, conhecimento e bondade

No grego antigo, várias palavras traduziam distintos aspectos da felicidade. A principal delas era eudaimonia, derivada dos termos eu ("bem-disposto") e daimon ("poder divino"). Trata-se da felicidade entendida como um bem ou poder concedido pelos deuses. Subentendia-se que , para mantê-la, a pessoa  deveria conduzir sua vida de tal maneira a não se indispor com as divindades, para o que era preciso sabedoria. Mesmo assim, ainda corria o risco de perder esse bem ou poder se os deuses assim o desejassem, por qualquer motivo arbitrário.
Isso significa que a felicidade era tida como uma espécie de fortuna ou acaso - enfim, um bem instável que dependia tanto da conduta pessoal, como da boa vontade divina [cf. LAURIOLA, De eudaimonia à felicidade..., Revista Espaço Acadêmico, nº 59].


PLATÃO [427-347 a.C.] - considerado por boa parte dos estudiosos o primeiro grande filósofo ocidental, juntamente com seu mestre, Sócrates - foi um dos principais pensadores gregos a se lançar contra essa instabilidade , em busca de uma felicidade estável, postura que caracterizará de forma marcante a ética eudemonista* grega.

*eudemonista - relativo à felicidade ou que tem a felicidade como valor fundamental ou principal objetivo.

No entendimento de Platão , o mundo material - aquele que percebemos pelos cinco sentidos - é enganoso. Nele tudo é instável e por meio dele não pode haver felicidade. Por isso, para esse filósofo, o caminho da felicidade é o do abandono das ilusões dos sentidos em direção ao mundo das ideias, até alcançar o conhecimento supremo da realidade, correspondente à ideia do bem.



O que isso significa e como devemos agir para alcançar essa condição?

1 - Harmonizar as três almas

Para entender a concepção platônica de felicidade, precisamos compreender primeiramente sua doutrina sobre a alma humana, contida na obra A República. Para Platão, o ser humano é essencialmente alma, que é imortal e existe previamente ao corpo. A união da alma com o corpo é acidental, pois o lugar próprio da alma não é o mundo sensível, e sim o mundo inteligível. A alma se dividiria em três partes:

alma concupiscente - situada no ventre e ligada aos desejos carnais;

alma irascível - situada no peito e vinculada às paixões;

alma racional - situada na cabeça e relacionada ao conhecimento.

A vida feliz de uma pessoa dependeria da devida subordinação e harmonia entre essa três almas. A alma racional regularia a irascível, e esta controlaria a concupiscente, sempre coma a supervisão da parte racional. Há, portanto, uma primazia da parte racional sobre as demais.



Para apoiar essa tarefa, Platão propunha duas práticas:

ginástica - conjunto de exercícios e cuidados físicos por meio dos quais a pessoa aprendia a disciplina e o domínio sobre as inclinações negativas do corpo; e

dialética - método de dialogar praticado por Sócrates pelo qual cada pessoa poderia escender progressivamente do mundo sensível [que Platão considerava ilusório] ao mundo inteligível [que ele considerava verdadeiro].

2 - Conhecer o bem

Por meio dessas práticas - especialmente da dialética - a alma humana penetraria o mundo inteligível, também conhecido como mundo das ideias, e se elevaria sucessivamente, mediante contemplação, das ideias perfeitas, até atingir a ideia suprema, que é a ideia do bem. Para Platão, as ideias perfeitas seriam a realidade verdadeira, e compreendê-las significava, portanto, alcançar o grau máximo de conhecimento.

Por que a supremacia da ideia do bem? Porque o bem, segundo o filósofo, seria a causa de todas as coisas justas e belas que existem, incluindo as outras ideias perfeitas, como justiça, beleza, coragem. Sem o bem não há nenhuma delas, inclusive a ideia perfeita de felicidade [teoria do mundo das ideias].

Em resumo, podemos dizer que, para Platão, a felicidade é o resultado final de uma vida dedicada a dieia do bem, o que poderia ser sintetizado na seguinte fórmula:

conhecimento = bondade = felicidade

As três coisas, quando ocorrem em sua máxima expressão, andariam sempre juntas, mas o caminho partiria do conhecimento.

Além disso, para Platão, a ascensão dialética equivaleria não apenas a uma elevação cognoscitiva [isto é do conhecimento], mas também a uma evolução do ser da pessoa [evolução ontológica]. Simplificando bastante, podemos dizer que aquele que alcança o conhecimento verdadeiro [que culmina com a ideia do bem] torna-se um ser "melhor" em sua essência e, por isso, pode viver mais feliz.



3 - Construir o bem de todos

Platão, no entanto, tinha como motivação fundamental de seu filosofar o âmbito político: para ele, a política era a mais nobre das atividades e de todas as ciências, pois tinha como objeto a pólis [cidade-estado grega] e, portanto, a vida do conjunto dos cidadãos. Por isso, seu projeto político-filosófico visou à construção de uma sociedade justa, isto é, aquela que promovesse o bem de todos [ o bem comum]:

[...] ao fundarmos a cidade, não tínhamos em vista tornar uma única classe eminentemente feliz, mas, tanto quanto possível, toda cidade. De fato, pensávamos que só numa cidade assim encontraríamos a justiça e na cidade pior constituída, a injustiça [...]. Agora julgamos modelar a cidade feliz, não pondo à parte um pequeno número dos seus habitantes para torná-los felizes, mas considerando-a como um todo [...]. (A República, p. 115-116)

Com esse propósito, em sua obra denominada A República, o filósofo idealizou uma sociedade organizada em torno de três atividades básicas: produção dos bens materiais e de alimentos , defesa da cidade e administração da pólis. Dentro dessa organização, a cada cidadão caberia uma função social (produtor, guerreiro, sábio), e esta seria definida de acordo com sua própria natureza, isto é, a aptidão inata a cada pessoa.
A identificação dessa aptidão natural ou vocação se faia durante o processo educativo. A educação seria igual para todos os jovens. Aqueles que se revelassem os mais sábios seriam destinados à administração pública. E, como os filósofos eram os mais sábios entre os mais sábios [os conhecedores do caminho da felicidade], seriam eles os governantes da cidade.

Dentro dessa organização, conforme concebeu Platão, cada um já seria feliz pelo simples fato de cumprir a função para a qual é mais apto por natureza.



sábado, 19 de maio de 2018

Platão, vida e obra.


 Quem foi Platão.



Platão foi escritor e filósofo, nasceu de linhagem ilustre, e teve uma boa educação, era de respeitada família aristocrática. Viveu por volta de 427 a 374 a. C. E morreu por volta de seus 80, 81 anos. Teve motivação particularmente por Heráclito e Éfeso.
Durante toda sua juventude, esteve bastante empenhado ao pensamento pré-socrático, que por sinal foi em seu encontro com Sócrates, originado de família modesta de artesãos, o ponto máximo do seu aprendizado.
Com o apoio de amigos (financeiramente também) Platão fundou sua própria escola no Horto de Academos, onde começou a se situar os intelectos mais brilhantes e talentosos da Grécia, como podemos citar: Aristóteles e Estagira.
Platão deveria dar um exemplo como cidadão, e apesar disso sua oposição era bastante crítica a democracia ateniense, ele nunca se indispôs juntamente aos membros do estado ateniense.
Platão era um pensador e que à medida que amadurecia sua reflexão política certamente mais se revelava como um conservador, que se declarava não satisfeito com as transformações políticas que aconteciam, definitivamente, a democracia moderna não o agradava.
Sua obra é inspirada por uma compreensão socrática, pois ele foi conduzido ao dialogo, de uma forma que a exposição das idéias não eram solitárias, em que ele se utiliza desse meio socrático.
Por meio de utilização de métodos, Platão desenvolveu e aprimorou seu próprio método de maneira tão profunda que criou um processo de dialética, que podemos definir como a arte de buscar o conhecimento pelo diálogo. Então começou a aplicar esse novo método para a compreensão do pensamento.
Não é à toa que os diálogos cuja autoria é de Platão são aceitas de forma unanimemente por sábios, estudiosos, escolásticos, filólogos e helenistas.
De forma geral, Platão foi quem desenvolveu uma noção de que o homem permanece em contato sempre com dois tipos de realidade, a inteligível, imutável e uma realidade que afeta os sentidos sensíveis dos indivíduos.
 A República perfeita de Platão.


O dialogo da segunda fase do filosofo Platão A República almeja instituir utopicamente um Estado perfeito.

Seu intuito inicial resigna-se em descobrir onde a justiça surge e habita, para isto ele recorre a um longo discurso onde todas as questões são minuciosamente debatidas e definidas.

Em um primeiro momento Sócrates[18] conversa com o ancião Céfalo a respeito da velhice, chegando a conclusões de como o caráter, a riqueza e a bondade facilitam tanto a juventude quanto a velhice do indivíduo. Porem ao abordarem o requisito justiça inicia-se o debate.

Muitas foram as tentativas de definir o que é justiça, Polimarco argumenta que justo é restituir a cada um o que lhe é devido, fazendo bem aos amigos e mau aos inimigos e no tempo de paz utilizar a justiça para nortear os contratos, Trasímaco contudo expõe que justiça é a conveniência do mais forte e Glauco por sua vez afirma que parecer justo e não sê-lo traz mais felicidade porque a justiça reside no meio termo entre o “maior bem, não pagar pelas injustiças e o maior mal, ser incapaz de se vingar de uma injustiça”[19].

Após extenuantes tentativas de entrar em um consenso sobre o assunto em pauta e qual a sua função, Sócrates confessa que não sabe o que é a justiça, portanto não teria argumentos para os convencer de que a justiça é melhor ou pior do que a injustiça e neste ponto começa a descrever a cidade com Adiamanto, sempre em função crescente utilizando a parábola da Placa, valendo-se do argumento de que é mais fácil identificar a justiça no Estado, pois este é grande do que no indivíduo e concluída esta etapa teria apenas o trabalho de comparar e verificar a veracidade dos fatos.

A cidade origina-se na necessidade de indivíduos iguais, porem com diferentes naturezas trabalhistas permitindo assim a especialização do artífice. O homem necessita de mais recursos que o necessário para se sentir feliz isto implica em um crescimento, admissível ate o limite em que a polis se manter unida, após estas especificações iniciais podemos visualizar três categorias de indivíduos, os governantes, os guardiões e os artífices.

Sócrates descreve minuciosamente como a cidade deve ser constituída, descrevendo como os indivíduos devem ser educados segundo a sua função, qual o papel da mulher dentro da sociedade caracterizada por ser igual ao homem ate o exeqüível, o sistema de procriação, os critérios religiosos e através do desempenho acompanhado assiduamente durante a educação para identificar quais dentre a sociedade são dignos de serem governantes advertindo que estes deveriam ser filósofos e maduros.

Constituída a cidade perfeitamente boa esta deverá possuir as quatro virtudes cardeais[20] para se manter unida, Sócrates define então a sabedoria como a virtude presente entre os governantes, a coragem como aspecto necessário aos guerreiros e a sensatez como feitio dos artífices e concluindo a partir do pressuposto que o que restou foi a justiça esta caracteriza-se por harmonizar os elementos da alma com a sabedoria e a injustiça como a desordem.

Concluída a fase inicial, Sócrates comparou o grau de felicidade do justo e do seu modelo governamental correspondente, a aristocracia, e o injusto classificado como tirânico e o seu modelo de estado correlativo. Após analisar levando em consideração os critérios de raciocínio, experiência e conhecimento, chega-se ao consenso de que o justo é mais feliz, pois utiliza estes três critérios com perfeição para discernir o bem e a verdade.

Esta síntese sobre a república de Platão nos remete a uma importante indagação sobre a legitimidade do método utilizado por Platão valendo-se do pressuposto que o indivíduo reage da mesma forma que um estado.

No entanto é impossível negar que os esforços deste filósofo em responder e argumentar todas as indagações dos membros presentes na discussão de forma clara e concisa proporcionou teses no mínimo viáveis e engenhosas. Na próxima parte do trabalho vamos expor os conceitos de alguns renomados autores para esclarecer alguns pontos obscuros sobre o assunto em questão.

Diálogos platônicos.



Maior parte da filosofia platônica fora escrita em forma dramática, o que torna seu estudo menos exaustivo do que o de outros grandes filósofos como Immanuel Kant, Thomas Hobbes e John Locke. Seus textos se desenvolvem de forma lógica, baseando-se na dialética, retórica e argumentação para que finalmente cheguemos às suas conclusões filosóficas.

Em seus diálogos Platão se preocupou em extrair de um conceito inicial seu máximo até obter-se, ou ao menos aproximar-se, a um conceito uno do qual não possam surgir dubiedades. Em sua filosofia são tratados temas tais como a justiça, a natureza, os limites da retórica, o que se entende por conhecimento, caráter e valor do amor sensual. A lista é grande, compõe-se de cerca de trinta textos considerados autênticos.

Podemos dividir seus diálogos em três grupos: diálogos iniciais; diálogos medianos, também chamados de intermediários; e por fim os chamados diálogos tardios, ou últimos diálogos. Os estudiosos da área acreditam que nos diálogos iniciais Platão busca apresentar a filosofia de Sócrates, por isso mesmo este aparece como um personagem. Pode-se citar de exemplo Eutífron, Íon e Críton. Já nos diálogos medianos Platão deixa a doutrina socrática, mesmo sendo Sócrates figura dominante, para então apresentar seus conceitos, incluindo a Teoria das Idéias, são exemplos desse período os textos Banquete e A República. E por fim os diálogos tardios onde Sócrates raramente aparece como figurante e nestes são apresentadas a filosofia de Platão, são expoentes desse período os diálogos Sofista, Timeu e As Leis.