“Nada é permanente,
exceto a mudança” – Heráclito
HERÁCLITO DE ÉFESO: Heráclito
nasceu em Éfeso (cidade da Jônia), que corresponde a atual Turquia. Pertenceu à
nobreza e sua família descendia do fundador da cidade. De acordo com Diógenes
Laércio: “Heráclito, filho de Blóson, ou, segundo
outra tradição, de Heronte, era natural de Éfeso. Tinha aproximadamente
quarenta anos por ocasião da 69ª Olimpíada (504–501 a.C.). Era homem
de sentimentos elevados, orgulhoso e cheio de desprezo pelos outros“. Por volta de 490
a.C, escreveu a obra “Sobra a Natureza”, dividida em mais de cem fragmentos e
que lhe rendeu o apelido de “obscuro”. Foi escrito na forma de sentenças
aforísticas e “a variegada prosa de Heráclito, artística e cuidadosamente
estilizada, vai de sentenças factuais em linguagem comum a enunciados
oraculares com efeitos poéticos especiais em vocabulário, ritmo e arranjo de
palavras”. (HUSSEY, 2008, p. 139). Dessa forma, o modo de escrever de Heráclito
é singular e bastante desafiador por possuir um caráter enigmático e sugestivo.
O DEVIR:
Heráclito é especialmente conhecido como o filósofo do devir, ou seja,
do “vir-a-ser”, que significa a mudança perpétua, sendo essa, a característica
mais marcante de seu legado: “O devir é caracterizado por um contínuo fluir das
coisas de um contrário ao outro: “as coisas frias se aquecem, as coisas quentes
se esfriam, as coisas úmidas secam, as coisas secas umedecem” (DK, 22 B 126);
“o jovem envelhece, o vivo morre, e assim por diante.” (REALE; ANTISERI, 1990
p. 65). Afirmava que no mundo “tudo flui”, isto é, que a realidade não é
estática, não há substância fixa, mas tudo encontra-se em constante movimento.
Para Heráclito, portanto, o mundo é dinâmico e está sempre em fluxo.
Tudo muda e transmuta e neste dinamismo, tudo se alterna constantemente entre
polos, e essa oscilação entre contrários é identificada como sendo responsável
pelo equilíbrio e unidade das coisas. “O devir é, pois, continuo conflito dos
contrários que se alternam, é uma perene luta de um contra o outro, é uma
guerra perpétua. ( REALE; ANTISERI, 1990, p.65). Mas é neste confronto do devir
que origina-se a harmonia universal, pois para Heráclito, identificar a
oposição existente na natureza, significa perceber a unidade que ela possui.
Vejamos abaixo um trecho de sua obra para esclarecer tal ideia:
“Um caminho: subida, descida, um e o
mesmo”. (DK 22B 60).
“São o mesmo o princípio e o fim de uma
circunferência”. (DK22B 103).
“A doença faz da saúde algo aprazível e
bom, torna a fome em saciedade e o cansaço em descanso”. (DK22
Raciocinemos de acordo com o pensador: como entender e valorizar a saúde
se não existe a doença? Ou como compreender o que é claro se o escuro não é
real? Ao pararmos para refletir, podemos, de fato, notar que para que certas
coisas possuam um sentido, elas necessitam de seus contrários.
Uma máxima que se refere à sua filosofia e que tornou-se popular, é “panta rei os potamós” (do grego πάντα ῥεῖ), traduzido como “tudo flui como um rio“, e proferida por
Crátilo, um de seus seguidores. Esse aforismo tem relação com um dos fragmentos
de Heráclito que sobreviveram no qual o pré-socrático declarou: “Ninguém
banha-se duas vezes no mesmo rio” (…) “De quem desce ao mesmo rio, vêm ao
encontro águas sempre novas”. (DK22 B 12). E no fragmento 49 de sua obra,
Heráclito escreveu: “Entramos e não entramos no mesmo rio; somos e não somos.”
Podemos interpretar essa passagem da seguinte maneira: suponhamos que você
entre em um rio hoje para banhar-se e depois de fazê-lo, vá embora. No dia
seguinte, decide voltar ao rio para mais um banho.
Entretanto, as águas que ali ontem correram não são, por certo, as
mesmas que passam hoje. E você também já não é mais a mesma pessoa do dia
anterior por diversas razões. Por exemplo, você envelheceu (ainda que minimamente),
viveu e adquiriu novas experiências, pode ter mudado suas perspectivas de hoje
em relação a algo que ontem pensava, etc. Dessa maneira, o rio seria apenas
aparentemente o mesmo rio, tal como você, aparentemente continua sendo o mesmo
de outrora. Então “entramos e não entramos no mesmo rio”, ao mesmo tempo em
que “somos e não somos”. Vejamos uma menção
escrita por Platão (Platão por OSBORNE, 2013) a respeito de Heráclito:
Ele compara as coisas com a corrente de um rio – que não se pode entrar
duas vezes na mesma corrente.
E quanto a nós? O que somos nós? Somos continuamente constituídos da
mesma matéria ou nossos corpos se modificam sutilmente, justo como a água de um
rio flui parecendo ser sempre basicamente a mesma?O que é de fato ser o mesmo
dia após dia? Talvez, como o rio, sejamos e não sejamos o que fomos um dia.
O FOGO:
Conforme citado na introdução sobre os pensadores pré-socráticos, nessa
época da filosofia, buscava-se um elemento natural (que pudesse ser
compreendido e conhecido pela razão) e que explicasse a origem e realidade da
natureza. De acordo com Heráclito, essa substância era o fogo e ele foi
considerado pelo filósofo como o responsável pela criação do mundo. Conforme
por ele declarado: “todas as coisas são uma troca do fogo, e o fogo, uma troca
de todas as coisas, assim como o ouro é uma troca de todas as mercadorias e
todas as mercadorias são uma troca do ouro”. (DK22 B 90).
A justificativa deste elemento como sendo o princípio do universo físico
é que este representa uma sequência de transformações, portanto, tudo provém do
fogo, e tudo a ele volta. Aristóteles escreveu em sua obra “Do Céu”, fez
referência a essa tese de Heráclito:
Concordam todos em que o mundo foi
gerado; mas, uma vez gerado, alguns afirmam que é eterno e outros que é
perecível, como qualquer outra coisa que por natureza se forma. Outros, ainda,
que, destruindo-se, alternadamente é ora assim, ora de outro modo, como
Empédocles e Heráclito de Éfeso. (…) Também Heráclito assevera que o universo
ora se incendeia, ora de novo se compõe do fogo, segundo determinados períodos
de tempo, na passagem em que diz “acendendo-se em medidas e apagando-se em
medidas”.
O próprio fogo, por si, indica mudança em suas propriedades. Por
exemplo, suas chamas, transformam-se em cinzas, fumaças e vapores. Talvez
esse tenha sido o fator que levou Heráclito a defini-lo como elemento básico
formador da natureza. E para o filósofo, as coisas que nos são familiares (como
terra, céu, ar) resultam de processos dessa continua alternância do fogo. “O
fogo, com efeito, é perenemente móvel, é vida que vive da morte do combustível,
é incessante transformação em fumaça e cinzas (…)” (REALE; ANTISERI, 1990 p.
68). Tal elemento, portanto, é o símbolo do devir e do equilíbrio que governa
os movimentos da natureza.
DEUS E ALMA:
Para Heráclito, até mesmo o próprio conceito de Deus é relacionado e
identificado em sua teoria dos opostos, conforme podemos notar em uma de suas
passagens: “O Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz, saciedade-fome; mas
se alterna como o fogo, quando se mistura a incensos, e se denomina segundo o
gosto de cada um.” (DK22B 67). E a alma, para ele, possui dimensão
infinita, e também carrega em si uma dualidade referente a sua teoria do fluxo
dos opostos: “Para almas é morte tornar-se água, e
para água é morte tornar-se terra, e de terra nasce água, e de água, a alma”. Além disso, o
pré-socrático sugere constantemente em trechos de seus escritos, que a alma não
é imortal, ela é mortal e imortal: “Imortais são mortais, mortais são imortais,
vivendo a morte de uns, morrendo a vida de outros”. (DK22B 62). O próprio ato
de morrer já se opõe ao de estar vivo. Logo, a própria morte, em si, já
expressa uma noção de oposição.
REFERÊNCIAS
HUSSEY, Edward. Primórdios da Filosofia Grega. São Paulo: Ideias
& Letras, 2008. 534 p. (Coleção Companios & Companios 1. Filosofia).
Org. A.A.Long. Tradução de Paulo Ferreira.
OSBORNE, Catherine. Filosofia
Pré-Socrática. Porto Alegre: L&PM, 2013. 155 p. (Coleção L± Pocket Vol.
1114). Tradução de Marcio Hack.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. Filosofia Pagã
Antiga: In: Historia da Filosofia. São Paulo: Paulus,
1990. (Coleção Filosofia, volume 1). Tradução de Ivo Storniolo
QUESTÕES
1 - Explique o que seria o "devir" e como esse fenômeno explicaria a realidade, segundo Heráclito?
2 - Nesse sentido [do devir],comente como a oposição existente na natureza dá sentido à existência e ao sentido das coisas no mundo?
3 - Como Heráclito se utiliza da metáfora do rio para explicar as mudanças ocorridas na realidade?
4 - Por que o fogo, como princípio do universo físico, seria o símbolo do devir?
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